O processo de luto e eu nunca nos demos bem. Assim como a ideia por trás da música Good Grief, eu achava que não há nada bom nessa situação e o ideal é nunca passar por isso. Esse problema só foi aumentando ao longo da minha vida, mas principalmente durante a pandemia: perdi amigos pra morte e pra situações da vida, tive que me afastar de ambientes sobre os quais eu sonhava quando era mais novo. Eu passei por mais situações ruins sem ter tempo de me recuperar das anteriores.
O álbum Flowers For Vases / descansos, do projeto solo de Hayley Williams do Paramore, foi lançado em 5 de Fevereiro desse ano. É precedido pelo EP Self-Serenades e o primeiro álbum, Petals For Armor. Os títulos dos dois álbuns aludem à ideia da feminilidade e o sentimentalismo como proteção. Self-Serenades foram canções simples que Hayley despretenciosamente escreveu sozinha, voz e violão, com o único propósito de agradá-la. Essa experiência culminou no álbum, também com arranjos simples. Sinceramente, ainda não sei se gostei. Eu me considero maximalista, vocês não sabem o desgosto que tenho de ver artistas de synth pop que eu gosto se virando pra música acústica. Mas sinto que nem a Hayley tem noção de quão importante esse álbum é pro processo de luto.
É um álbum muito repetitivo. Quase todo com sonoridade muito semelhante e com o mesmo tema: como Hayley ama e sente falta de seu ex-marido abusivo. Eu tinha estudado os estágios do luto com cuidado, até minha psicóloga me informar que ele não é linear; alguns pulam fases, outros passam em ordem diferente e ás vezes se passa pelo mesmo estágio mais de uma vez. Em primeiro lugar, tente o que vou dizer num ambiente seguro, preferivelmente uma sessão de terapia. O que têm funcionado pra mim é o seguinte: primeiro, eu penso em como eu amei essa pessoa, esse lugar, essa experiência. Penso mesmo, com todas as letras. Sem aquela voz da razão me dizendo que não faz sentido eu investir meu tempo e minha energia em algo que eu não posso mudar.
Eu escrevi várioas álbuns do ponto de vista dessa vozinha e a própria Hayley escreveu alguns; Petals For Armor é todo isso. "Eu me recuso a me sentir mal por algo que não é minha culpa!" É apenas racional, não é? Funciona bastante bem no contexto de oscilações de humor. Mas eu penso bem, penso nos detalhes. Penso nos momentos maravilhosos, como eu era feliz, como isso me mudou pra sempre. Cada coisinha que eu amava e que eu perdi.
Então eu penso em quão grave e cruel foi perder isso. Pode ser comum, mas não é normal! Se fosse, eu taria preparado. Eu juro, prolongar essa dor vale a pena. Chuva limpando o céu, tempestade limpando um quarto de um buraco no teto, lágrimas limpando o rosto. Abrir uma ferida pra tirar os fragmentos de bala. Sentir a dor. Quando não tiver mais o que pensar, nenhuma nova nuance da dor que eu possa descobrir no momento, eu me distraio. Óbvio que é uma solução muito breve, mas é aí que as propriedades curativas do tempo finalmente começam a agir.
A morte e o fim das experiências são inevitáveis; essas é que são as coisas ruins. O luto é a ferramenta de cura. Comparecer a um funeral não é ruim; perder um amigo que é. A opção de não aparecer, de se negar a reconhecer esse fim não é uma opção real. Não é seguir em frente.

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