Rocky Horror: Seu Estilo de Vida é Muito Extremo

 Rocky Horror: Seu Estilo de Vida é Muito Extremo



[SPOILERS DO FILME "THE ROCKY HORROR PICTURE SHOW" E A PEÇA "THE ROCKY HORROR SHOW']

Mil novecentos e setenta e três. Um ano após o lançamento de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars; no auge do Glam Rock. Um jovem trans não-binário neo-zelândes chamado Richard O'Brien (pronomes ele/dele), perdido em Londres, estreou com sua peça The Rocky Horror Show, inspirada por filmes de terror clássicos e o glam rock. Tim Curry, Patricia Quinn e Nell Campbell o acompanharam da peça ao longa-metragem, The Rocky Horror Picture Show, de '75. (Eu nunca vi a peça porque é difícil achar uma produção brasileira. Me respeita.)

A rebelião era esteticamente coesa e sensual. Os olhos se viravam para os corpos andróginos magríssimos. No mundo lá fora, fluidez de gênero e sexualidade ainda eram condenáveis; nesse grupo seleto de artistas classicamente bonitos, era, acima de tudo, glamuroso. Em meados dos anos 70, no  entanto, a febre  já havia esfriado. Um acontecimento previsto por Rocky Horror. Segue um resumo.

Brad e Janet são um jovem casal heteronormativo muito apaixonado. No início do filme, Brad pede Janet em casamento na saída do casamento de amigos próximos (caso haja dúvida sobre o tema heteronormatividade, foi escrito no carro no qual os noivos vão embora: "ESPEREM ATÉ HOJE À NOITE; ela conseguiu o dela, agora ele vai conseguir o dele). Brad é bastante tímido, sensível e desajeitado, mas sente necessidade de se apresentar "durão" na frente da Janet. Janet é exigente porém puritana; os dois estão "se guardando" pro casamento. Eles pretendem encontrar com seu ex-professor em comum, Dr. Scott, para dar a nóticia, pois se conheceram em uma prova. No meio do caminho, um pneu do carro é furado. Na chuva e no escuro, vão pedir ajuda no castelo do Dr. Frank-N-Furter, cientista e auto-intitulado travesti do planeta Transsexual, na galáxia de Transilvânia.

Os dois são seduzidos por seu anfitrião e sua pretensão de relacionamento monogâmico e heteronormativo se desfaz rapidamente. Frank-N-Furter se revela ser uma pessoa manipulativa e até homicida, no entanto: usa, descarta e é possessivo de seus amantes como se todos fossem seus coadjuvantes; objetos belíssimos pra decorar sua vida. De fato, ao se deparar com todos o confrontando (nesse ponto,Janet dormiu com Rocky e Frank acredita que Brad atraiu Dr. Scott, que investiga alieníginas, até o castelo), transforma-os em estátuas em estilo greco-romano (eu sei, a estética desse filme é tão extravagante, low-budget e maravilhosa) e os posiciona (todos maquiados e vestidos de forma semelhante a ele, é claro) em um palco numa sala de teatro vazia.

De-estatuados, há um número musical sobre as influências positivas e negativas de Frank em suas vidas. Columbia encontrou seu lugar como "groupie" mas foi rapidamente descartada; Rocky nasceu lindo (num contexto onde isso significa tudo), mas tudo que conhece é o sexo; Brad e Janet se tornaram confiantes e confortáveis com sua sexualidade (em mais de um sentido). No final do número, Rose Tints My World, Frank-N-Furter performa a mensagem principal do filme, que vêm insipirando jovens queers há 48 anos: Don't Dream It, Be It (não sonhe, seja). Todos se jogam numa piscina (com A Criação de Adão, de Michelangelo, no fundo) e rapidamente perdoam Frank, como Columbia havia feito várias vezes antes. Porém, os companheiros alienígenas Riff Raff (interpretado pelo responsável por essa bagunça pré-cancelamento, Richard O'Brien) e Magenta, que lidam com Frank há uma quantidade não-mencionada de tempo, decidem matá-lo e voltar pra Transsexual.

Aqueles que foram libertos para explorar sua sexualidade e expressão de gênero apesar das atitudes hedonistas e, consequentemente, egoístas de Frank o fazem porque o conhecem há pouco tempo. Columbia e Rocky morrem o defendendo e Brad, Janet e Dr. Scott, figurativamente e literalmente despidos de suas assunções sobre a própria identidade, se encontram perdidos. E o filme termina assim (?!).

Além da óbvia influência estética e sonora, como esse pode ser um filme sobre o Glam Rock? O motivo da desavença entre Columbia (creditada como "Columbia, uma groupie") e Frank é ele ter assassinado (e canibalizado) seu ex-amante em comum, Eddie, interpretado por Meatloaf. Eddie é a personificação do Rockabilly (como expresso em Hot Patootie - Bless My Soul), a rebeldia ainda "inocente" assassinada pela personificação do Glam Rock. É conhecido o dano que os anos 70 causaram em seu maior representante, O Camaleão. O estilo de vida hedonista arquiteta o seu próprio fim; Frank é morto por consequência de suas atitudes. Assim como Columbia, Rocky, Janet e Brad, nós o perdoamos, mas aqueles que não devem a auto-descoberta a ele, não.

Vício em cocaína e obsessão por impressionar a parte, não é surpresa que a atenção dos jovens tenha se voltado ao Punk. Esse novo gênero surgiu em provocação ao status quo, levando em conta todos os aspectos inquestionavelmente positivos da filosofia Glam Rock. E os aspectos inquestionavelmente positivos da moda.

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